Quadrinhos de Gus Morais

29 Maio, 2009

Quadrinhos múltiplos e interativos

Arquivado em: Uncategorized — Gus M. @ 17:49

Escrevo esse artigo para colocar algumas idéias a serem pensadas no quadrinho para web. Ou webgibi, como gosto de chamar. Sem intenção de ditar regras nem nada, mas sim tentando trazer um pouco a tona algumas experiências que tenho feito e trazer um pouco mais os quadrinistas para a discussão das possibilidades da web para o desenvolvimento de narrativas. Como discuti rapidamente com o Cadu Simões do Homem-Grilo no Twitter, dias atrás – ok, aos poucos aprendo que Twitter não é lugar para discussões complicadas – acredito que o webgibi deve ser pensado além do mero armazenamento de informações em sites e exibição de páginas escaneadas em browsers.

Antes de começar, queria dizer que ouvi o termo webgibi pela primeira vez em algum podcast ou texto do BK. Acho interessante por soar bonito e simpático, muito melhor que o termo HQtrônicas cunhado por Edgar Franco. “Eletrônicas” traz um sentido pesado, ao meu ver, que nao expressa a atualidade, modernidade, velocidade, interatividade do digital. Falando-se em web, prefiro usar “digital” que “eletrônico”, que me remete muito mais a uma época de antigos computadores e televisões. E web tem tudo a ver com digital: portanto, webgibi parece juntar muito bem dois termos chave em uma palavra fácil e gostosa de dizer.

Sobre meus apontamentos não há nada de revolucionário; na realidade, são coisas muito simples. Mas que ainda, talvez por uma tradição maior no uso do papel em zines, livros, revistas e álbuns, não tem sido pensadas com maior cuidado – ao menos, entre os quadrinistas que acompanho. Se estiver enganado, por favor, me informem: adoraria conhecer material de HQ voltado para web que funcionasse bem, além da lógica do papel.

rompPara exemplificar alguns pontos que gostaria de discutir, vou utilizar um quadrinho que criei meses atrás para um projeto. Este quadrinho foi feito para o piloto de um curso para jovens de uma universidade de administração de São Paulo.

O projeto todo foi bastante inovador e talvez, por isso, tenha encontrado certa resistência para continuar. A idéia era revolucionar no que fosse possível (dentro, claro, de todas as complicações de verbas e prazos). De minha parte, pensei em utilizar os quadrinhos para transformar os conceitos mais pesados e complicados de administração em algo mais interessante e divertido para o leitor jovem.A  inovação maior neste projeto começava em se pensar todo o material como “virtureal“.

Pensar em virturealidade significa não distinguir real de virtual. O virtual não se opõe ao real, e sim ao “atual”.  Isso é algo que o levemente afetado Pierre Levy diz há tempos. A virtualidade é apenas uma maneira/temporalidade diferente de se vivenciar a realidade. O que hoje parece estranho de ouvir (afinal, ainda sentamos no PC, ligamos a tomada, olhamos para uma tela) será mais claro na medida em que as interfaces se tornarem cada vez mais invisíveis e/ou integradas aos nossos sentidos.

Pensar o material como virtureal abre amplas possibilidades. E isso é bom e ruim. Deve-se saber até onde se pode ir para não se perder no grande fractal da rede. Mas não é nada que um pouco de bom senso resolva. No caso do quadrinho que desenvolvi, a primeira aproximação com o tema pelo leitor vinha, ironicamente, pelo papel. Não porque o papel seja uma mídia mais adequada, mais tradicional, mais própria aos quadrinhos. Mas sim pelo seu caráter fechado, hermético: a primeira abordagem precisava passar determinados itens e determinados conceitos dentro de uma mesma história para todos os leitores, sem exclusão. E aí cada jovem aluno recebia o começo de sua história em um caderno impresso em papel. Você pode ler essa breve introdução que foi impressa em papel, da primeira edição da história, clicando aqui (são apenas duas páginas).

Mas, se a idéia era aprisioná-los no ambiente do papel no início, a próxima etapa seria libertá-los na continuação da leitura na web. Ao acessar um link digitado na última página do quadrinho impresso, o leitor ganhava a possibilidade de experimentar os seus rumos online. E aí, os personagens da história Vitor e Talita que se deparavam com grandes questões e problemas relacionados aos seus negócios e rumos da sua vida poderiam testar diferentes alternativas sendo guiados pelo leitor. Talita, uma jovenzinha hype e sonhadora que queria ter sua própria loja de roupas, se perguntava: seria melhor abrir uma loja num shopping ou numa rua agitada? Vitor, um jovem amante do capital, também estava confuso se deveria investir seu suado dinheirinho com riscos altos ou baixos.

E porque não permitir que o leitor guie os personagens dentro da história? Dentro de um contexto didático, principalmente, a experiência é saudável no sentido de demonstrar as peculiaridades e complexidades das consequências de cada escolha que tomamos. A estrutura geral da história, portanto, seguia a seguinte estrutura:

diagrama

Neste experimento, a história foi apresentada em Flash, com a ajuda de um programador. Como não possuo acesso aos arquivos da programação, coloquei em imagem e HTML  mesmo, para quem deseja ler a história completa e interagir AQUI. Mas fica claro que a participação de um programador na elaboração do fluxo dos quadrinhos pode ajudar e muito na imersão e organização da leitura. O que me leva a pensar que aos novos quadrinistas, dentre os cursos de aquarela, photoshop, nanquim e roteiro seria legal, também, incluir outros cursos de lógica de programação, actionscript, flash, dreamweaver e o que mais permitir maior desenvoltura em ambiente web.

roteirHá quem argumente que uma estrutura caótica e não-linear tire uma certa unidade, uma certa construção de moral, de ambientação que uma história em quadrinhos deveria ter. Acho que o McCloud já falou algo relacionado em sua palestra no TED, que o meu amigo David Donato indicou em algum comentário recente. Eu concordo e discordo em alguns pontos. A experiência múltipla e caótica de alguns filmes como “Efeito Borboleta“,  “Donnie Darko“, “Corra, Lola, Corra”, “Bem-me-quer, mal-me-quer” e outros demonstram que é possível criar uma história de múltiplos braços e se extrair algum discurso geral ou moral ou seja-lá-o-que-o-quadrinista-quer da visão geral destes braços. Isto, claro, para os que prezam uma história redondinha: nada impede que a gente assuma o caos como parte da narrativa.

Mas para os que valorizam esse caráter discursivo e redondinho do quadrinho tradicional (num sentido geral e estrutural, claro… eu sei que uma HQ linear pode ter milhares de referências, citações e redes de sentido), acho interessante pensar a leitura do quadrinho na web como um efeito de zoom, de se aproximar e se distanciar. Posso me aproximar num braço da história e me deixar envolver. Logo após, me afasto e me envolvo com outro braço. Se quiser ver o “polvo inteiro” da história, é só me afastar mais. Isso complica a produção das coisas, é claro, mas também não as torna mais interessantes? Não as torna mais parecidas com nossa realidade múltipla e fragmentada? Será que o quadrinho é uma mídia tão consagrada e estabilizada que deva se excluir da interação?

E aí caímos na palavra chave: interação. Interação não significa tornar tudo editável. Nem tudo precisa ser editável se se deseja construir algum discurso ou história. Mas pode-se usar a interação a seu favor como mais um dos recursos da história. Toda interação é mais ou menos manipuladora, mais ou menos política – interagimos de um jeito ou de outro de acordo com as intenções de quem cria e a experiência de quem usa.

Um problema que enfrentei ao escrever a história de Vitor e Talita é que, além de trabalhar com múltiplos braços em uma história, eu precisava pensar em como iria bolar as PRÓXIMAS histórias com os personagens. Sim, houve mais sete histórias seguindo a estrutura que apresentei acima. E a cada edição da revista em quadrinhos tínhamos um problema novo a ser resolvido. E então vem a pergunta mais complicada que é: como haver continuidade com interação? Como haver construção de uma história autoral se o leitor mete o dedo no mouse e muda os rumos do personagem?

É uma questão complicada e que pode ter VÁRIAS respostas. No fim do texto irei propor alguns caminhos e sugestões, mas por ora, segue a minha decisão para resolver o meu problema com a história de Vitor e Talita. No meu caso, acreditei que a Edição 2 da história poderia continuar sem muitos problemas com relação ao que aconteceu com a Edição 1. Há quem cobre uma relação de causa e efeito com relação ao início da Edição 2 com as conclusões obtidas na Edição 1.

Ok, algumas coisas podem ser relacionadas historicamente, algumas coisas da Edição 2 podem ser reflexo dos acontecimentos da Edição 1. Outras não precisam. Até porque muita coisa que aconteceu nos braços virtuais da  Edição 1 pode ter matado o personagem, pode ter sido um sonho que ele teve, pode ter sido um caminho desinteressante.  O autor pode tomar decisões sobre qual dos caminhos oferecidos na Edição 1 seriam mais interessantes de ser explorados na Edição 2 e começar a explorá-los.

Não é questão de ser ditador e ignorar a escolha do leitor. Até porque se falarmos em termos de ditadura, os maiores ditadores seriam os quadrinistas do papel, os cineastas, os escritores. A coisa não é simples assim. É questão, sim, de tornar a interatividade em SI algo interessante e gostoso de fazer, muito mais do que dar ao leitor um total papel de criação em sua interatividade. É mais ou menos como um jogo de RPG daqueles de mesa. Como jogador eu sei, no fundo, que quem guia os meus caminhos e sabe os meus destinos é o Mestre, mas isso não evita que eu me divirta bastante nos momentos de liberdade que tenho em minha interação com a história.

Exemplificando o que quis dizer, coloco aqui o comecinho da segunda edição do projeto. Vitor e Talita já começam a história com decisões TOMADAS em cima dos acontecimentos experimentados na Edição 1. Não vejo problema algum que o autor já situe os personagens independente das experiências anteriores do leitor-interativo no passado. O importante é que a situação da história 2 traga, em si, novas experiências que valham a diversão e a leitura.

O autor pode, também, fazer o uso (e brincar um pouco) com uma certa técnica de “joão-sem-braço”. Nem tudo precisa ser justificado e explicado. Eu não preciso explicar, por exemplo, se Talita e Vitor foram a um café num interlúdio da história. Não preciso explicar se a mãe de Talita ficou irritada com suas decisões. Isso pode aparecer ou não mais tarde e ser usado como um elemento surpresa na história. A HQ se enriquece não apenas com as possibilidades que você abre nos seus braços narrativos, mas se enriquece também, principalmente, nos braços invisíveis que ainda não foram desenvolvidos. Nada me impede também de, no futuro, voltar nos webgibi da Edição 1 e colocar mais 2, 5, 100 braços alternativos.

outrasAgora em pontos, pra facilitar. Algumas idéias legais e que poderiam funcionar, popularizar, tornar mais interessante a leitura de webgibis:

1. Produção Contínua - Quadrinhos no esquema novela. A história é desenhada e produzida na medida em que os leitores decidem os rumos dos personagens. A periodicidade pode ser igual ou menor a de um seriado de televisão, dependendo, claro, do estilo que o quadrinista escolher para desenhar sua história. Assim, poderiamos ter um mini-capítulo de 6, 7, 10 páginas por semana e até segunda-feira o pessoal vota em qual rumo quer ver pro seu quadrinho. Pode-se decidir se a história a ser desenhada terá um único braço em cima da decisão dos leitores ou mais braços. Pode-se agradar o leitor, mas também pode-se ser irônico com ele, brincar com ele. A coisa pode, com certeza, ser mais legal e interativa que um Você Decide da Globo.

2. Produção Coletiva – Desenhar quadrinhos num esquema fractal, caótico, com mil braços exige tempo, trabalho, esforço. É bastante complicado mas… bom, fazer um quadrinho tradicional também é complicado à sua maneira. Um coletivo que se disponha a desenhar em um único estilo pode ser a saída para este problema. Engolindo um pouco a vaidade, talvez, e toda aquela coisa de querer ter um trabalho totalmente autoral. Pensar o quadrinho como trabalho coletivo, como trabalho próximo ao cinema. Unir-se em um único traço facilmente reprodutível em equipe, mas que todos se sintam em acordo, para viabilizar histórias caóticas, múltiplas e ágeis de qualidade.

3. Replicabilidade - Como fazer teu quadrinho circular? Tem algumas opções como o AddThis, que facilmente fazem teu negócio ser linkado em Facebooks, Twitters, etc. Tem algumas ferramentas na web (como sites de Slides como o SlideShare, 280Slides, etc) que oferecem a opção de Embed em suas apresentações. Enfiar o seu quadrinho num programinha desse de slides pode ser uma boa alternativa para que ele seja replicado facilmente por blogs como se fosse um vídeo de Youtube.  Ainda não há opção definitiva e melhor possível para isso, mas uma coisa é fato: o usuário gosta de ter no seu blog e no seu scrapbook aquele video que ele gosta MUITO MAIS do que indicar um link para algum canto. Um link é uma entrada em OUTRO mundo, o leitor muda de janelinha e se perde e se distrai em outras coisas e… enfim, por aí vai.

4. Chutando o balde - O lance mais legal do digital, no fundo, é:  tudo é janela para tudo. Com o quadrinho não é diferente. Um pixel, uma palavra, um balão, um personagem, um quadro. Quer ganhar grana com teus quadrinhos? Ganhe visibilidade e faça um merchan básico e vista teus personagens com roupa da adidas com link pro virtual store deles. Crie um e-mail pro teu protagonista da história e deixe ele ali, no desenho, como algo clicável. Assim, como quem não quer nada, um e-mail escrito numa telinha de computador desenhada em alguma cena do quadrinho. Se alguém clicar e escrever pra este e-mail, responda. Teu personagem ganha OUTRA dimensão. Explore as possibilidades de se ver a tela como um OLHO e não como um substituto do papel, como sugere o McCloud em seus livros. Use o Wix pra fazer a sua história gigante no formato de um painel com som e tudo. Acima de tudo, explore! Há mil ferramentas novas surgindo pela net todo dia e embora não sejam feitas pensando em quadrinhos…  há infinitas maneiras de subvertê-las.

Fico por aqui. Aos que querem saber de novas histórias, estou começando uma nova e deve aparecer por aqui em 1 ou 2 meses!

Abraço,
Gus Morais

15 Maio, 2009

6. Simulasco

Arquivado em: Uncategorized — Gus M. @ 23:06

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